Tesouros que roubei

Porque aqui roubar não é um crime

Entre misérias…há os amigos Maio 5, 2009

Filed under: Cogito adentro,Ditos suspensos,Mim adentro,Tesouros do Cinema — tesourosqueroubei @ 6:59 pm

“Era Uma Vez na América” de Sergio Leone

Hoje voltei a ouvir os acordes da guitarra de um feiticeiro amigo. E revisitei por momentos a nossa doce inconsciência das brincadeiras parvas que como amigos fazíamos, nós, os amigos que sempre amigos ficámos e agora não conseguimos manter essa leveza constante. Só assim, por instantes, na música que sempre nos foi ambiente senti vontade de estarmos outra vez juntos, com desgraças mas juntos para as sentir menos fortes. Juntos sem peso, ou sem dar importância ao peso porque estávamos juntos. Para que nas gargalhadas infantis afugentemos as nossas misérias. Para que o nosso barulho seja música para os ouvidos e para que o nosso silêncio se faça e desta forma conseguirmos chegar aos píncaros da ilusão que a música nos levava. Ainda leva, a mim e aos meus amigos que se enfeitiçam com as melodias do feiticeiro também amigo.

“O que nos salva é dar um passo e outro ainda.”  Saint-Exupéry

 

Bem-vindo ao Norte… Janeiro 29, 2009

Filed under: Mundo adentro,Tesourar,Tesouros do Cinema — tesourosqueroubei @ 6:39 pm

 

“Primeiro, as verdades.

O Norte é mais Português que Portugal.

As minhotas são as raparigas mais bonitas do País.

O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela.

As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais

impressionantes que já se viram.

Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma

Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo

está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade

verde-branca.

Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro,

que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece

tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas.

 

Mais verdades.

 

No Norte a comida é melhor.

O vinho é melhor.

O serviço é melhor.

Os preços são mais baixos.

Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar

uma ninharia.

Estas são as verdades do Norte de Portugal.

Mas há uma verdade maior.

É que só o Norte existe. O Sul não existe.

As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira,

Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta.

Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte.

 

No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se

identifica como sulista?

No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses

juntos falam de Portugal inteiro.

 

Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país.

Não haja enganos. Não falam do Norte para separá-lo de Portugal.

Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal.

Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro

que constitui Portugal.

 

Mas o Norte é onde Portugal começa. Depois do Norte, Portugal

limita-se a continuar, a correr por ali abaixo.

Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o

Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria

mesmo, por muito pequenina. No Norte.

Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da

Europa. Mais ou menos peninsular, ou insular. É esta a verdade.

Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é

especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores

são um caso à parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no

Centro nem no Sul – falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam

do Algarve – falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela

entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil

misturadas, Continente. No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e

ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português,

semi-arrependido, como quem não quer a coisa.

 

O Norte cheira a dinheiro e a alecrim.

 

O asseio não é asséptico – cheira a cunhas, a conhecimentos e a

arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade.

 

Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é

impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos

portugueses) nessas coisas.

 

O Norte é feminino.

 

O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da

mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha

pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso.

 

As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes impossíveis,

daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a

escrever-se sozinhos.

 

Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham

de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não

dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e

honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem

belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem

vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas,

da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem

puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito. Gosto

das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas,

de carrapito perfeito, que têm os olhos endurecidos de quem passou a

vida a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias.

Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens.

Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e

os maridos, mas gosto delas.

São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem.

As mulheres do Norte deveriam mandar neste país.

Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as

festas, são as senhoras em toda a parte.

Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que

decidem silenciosamente.

Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância

especial. Só descomposturas, e mimos, e carinhos.

O Norte é a nossa verdade.

Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho

no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do

Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar

um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu,

lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e

compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os

seus pedaços e pormenores.

Depois percebi.

Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos.

Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e

apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a

terra maior que é o ‘O Norte’.

Defendem o ‘Norte’ em Portugal como os Portugueses haviam de defender

Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a

sua pertença particular – o nome da sua terrinha – para poder

pertencer a uma terra maior, é comovente.

No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do

Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas

como as de Ponte de Lima. Em Ponte de Lima dizem que a vila de

Amarante ainda é mais bonita.

O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais

Minho ou Trás-os-Montes, se é litoral ou interior, português ou

galego? Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para

aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes,

sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto

tambor e o céu em fogo, para adivinhar.

O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de

nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira

que têm de dizer ‘Portugal’ e ‘Portugueses’. No Norte dizem-no a toda

a hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem

patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como ‘Norte’. Como se fosse

assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos

chamamos todos?”

 

Miguel Esteves Cardoso

 

Este é o de Portugal e aqui fica o Norte de França também cheio de verdades que depois de “visitadas” ganham novos contornos.

 

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 ”Para fazer a vontade à sua mulher Julie que se encontra bastante deprimida, o administrador dos correios Philippe Abrams (Kad Merad) faz tudo para conseguir transferência para o soalheiro Sul de França. Mas, quando Philippe é apanhado a fazer vigarices para conseguir o novo lugar, o castigo não podia ser pior: para pagar as suas asneiras ele terá de trabalhar durante três anos, na estação dos correios de Nord Pas de Calais, uma das regiões mais industriais e frias do País.
Depressa porém, ele vê-se a passar bons momentos com os afáveis e bem-humorados habitantes do Norte, acostumando-se à sua peculiar cozinha e até mesmo a aprender o dialecto local, o incompreensível Ch’ti…”

 

 

 

“Tudo é possível” Maio 5, 2008

Filed under: Tesouros do Cinema — tesourosqueroubei @ 8:03 pm
Imagem do filme
 

“Os Sonhadores”

 

A ”Notícias Magazine” deste fim-de-semana é uma edição especial dedicada aos anos 60 e aos 40 anos de Maio’68. As ruas de Paris daquela altura são o pano de fundo escolhido por Bernardo Bertolucci para o filme “Os Sonhadores”, de 2003, que paira na minha cabeça sempre que se faz referência a esse momento da História.

Muitos consideram-no o movimento revolucionário mais importante do século XX, mas a dimensão é de louvar pela espontaneidade que caracterizou o movimento estudantil de Maio de 1968 em Paris. Foi grande por isso, sem planos nem senhas, sem noção de consequências, vale pela coragem esta greve geral de estudantes que mobilizou 10 milhões de trabalhadores, aproximadamente dois terços da população activa francesa. 

Nos “Os Sonhadores” com a História mistura-se o cinema através da cumplicidade de três jovens que têm em comum a paixão por filmes clássicos. E mais não digo, mais não quero dizer sobre um filme do top10. Só acrescento a referência a uma das músicas que compõem a Banda Sonora deste filme: “I’m a Spy” dos “The Doors” a encaixar completamente no “ménage à trois” embebido na Primavera de 1968.

 

 

Imagem da capa da “Notícias Magazine” – Maio’68

 

 

 
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