“Fracas expectativas são sinal de felicidade” é uma frase de um estudo sobre esse estado, desejado por todos e que só apenas existe conforme o sentido de cada um, baseado nas ditas expectativas. E à primeira vista olho para esta afirmação e parece-me depreciativa. Imagino logo um pobretana, daqueles imbecis que se enterra na própria miséria. Isto porque pobres, os há de muitas espécies. Esta categoria, os por mim considerados miseráveis, são mais pobres na índole do que pela falta de cifrões que normalmente caracterizam a pobreza. Ainda assim, não ponho esses mesmos cifrões de lado porque os pobretanas fazem malabarismo com eles.
Um dia destes no “Opinião Pública” da SIC Notícias o tema em discussão rondava o Carjacking e as novas medidas de prevenção adoptadas recentemente. Uma telespectadora disse, no telefonema que fez, mais ou menos isto: “Roubaram-me o carro e preferia que me dessem um tiro, do que me roubassem o carro.” Considerando todo o transtorno que se seguiu pela falta que lhe fez, pois não foi recuperado, e as prestações que até então tinha pago e continuava a pagar por algo que se tinha esfumado. Para mim, um bom exemplo de pobretana e malabarista. O tiro não foi propriamente uma força de expressão, pela forma convicta com que se referiu a ele e no contexto de tudo o que disse. A telespectadora que se seguiu a ela, antes de dar inicio à intervenção que tinha em mente, não conseguiu deixar de se mostrar estarrecida com o que acabara de ouvir. Estarrecida foi mesmo a palavra utilizada e é sinónimo da que me caracterizava na altura: atónica.
A primazia da vida é comum a todos e espontaneamente interiorizada. As expectativas variam, mas julgo que o instinto de sobrevivência das situações limite dita as regras e joga sozinho. Para a grande maioria das pessoas um tiro é pior que um carro roubado.
Já consigo perceber aquela expressão “desde que haja saúde” e todas as variações de a enaltecer em detrimento de muitos outros “estados de gracinha”. Não sei se a saúde é a mais importante condição na conjuntura da vida, mas reconheço-lhe a importância. Quando era miúda, nas minhas primeiras incursões hipotéticas fazia este raciocínio: é melhor viver com saúde e sozinha ou não ter saúde e morrer rodeados por quem nos ama? Na altura preferia morrer. Agora acho que tendo a saúde em dia tudo o resto depende de cada um. Uma alimentação saudável e exercício físico ajuda mas não é a garantia de uma vida mais prolongada e vigorosa. Da mesma forma que o lutar pelos nossos sonhos não são a certeza de os realizarmos.
Sobre a felicidade muito há a dizer mas a frase com que iniciei este desarticulado de ideias parece querer dizer que temos que desejar pouco para sermos felizes. E este sentido de abstinência de expectativas como sinónimo de felicidade já conhecia na “Carta Sobre a Felicidade” de Epicuro a Menescau.
“O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não-viver não é um mal.
Assim, como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve.
(…)
Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não-nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais.
Consideremos também que, dentre os desejos, há os que são naturais e os que são inúteis; dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas naturais; dentre os necessários, há alguns que são fundamentais para a felicidade, outros, para o bem-estar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a direccionar toda a escolha e toda a recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas acções, para nos afastarmos da dor e do medo.
(…)
Embora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles nos advêm efeitos muitas das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo. Portanto, todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser sempre evitadas. Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem.
Consideramos ainda a auto-suficiência um grande bem; não que devamos nos satisfazer com pouco, mas para nos contentarmos com esse pouco caso não tenhamos o muito, honestamente convencidos de que desfrutam melhor a abundância os que menos dependem dela; tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil.
(…)
Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não é só conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem termos as vicissitudes da sorte.
(…) a prudência é o princípio e o supremo bem, razão pela qual ela é mais preciosa do que a própria filosofia; é dela que originaram todas as demais virtudes; é ela que nos ensina que não existe vida feliz sem prudência, beleza e justiça sem felicidade. Porque as virtudes estão intimamente ligadas à felicidade, e a felicidade é inseparável delas.
(…)
Entendendo que a sorte não é uma divindade, como a maioria das pessoas acredita (pois um deus não faz nada ao acaso), nem algo incerto, o sábio não crê que ela proporcione aos homens nenhum bem ou nenhum mal que sejam fundamentais para uma vida feliz, mas, sim, que dela pode surgir o início de grandes bens e de grandes males. A seu ver, é preferível ser desafortunado e sábio, a ser afortunado e tolo; na prática, é melhor que um bom projecto não chegue a bom termo, do que chegue a ter êxito um projecto mau.
Medita, pois, todas estas coisas e muitas outras a elas congéneres, dia e noite, contigo mesmo e com teus semelhantes, e nunca mais te sentirás perturbado, quer acordado, quer dormindo, mas viverás como um deus entre os homens. Porque não se assemelha absolutamente a um mortal o homem que vive entre bens imortais.”
Excertos da Carta Sobre a Felicidade” de Epicuro a Menescau