Tesouros que roubei

Porque aqui roubar não é um crime

Ó Guimarães… Maio 16, 2009

Filed under: Bolinar,Cogito adentro,Mim adentro,Mundo adentro,Tesouros dos Livros — tesourosqueroubei @ 12:18 pm

“De uma cidade não desfrutas as sete ou as setenta maravilhas, mas sim a resposta que dá a uma tua pergunta.” (“As Cidades Invisíveis” de Ítalo Calvino)

Onde nasceu Portugal?

Não é bem esta pergunta que faço, mas é pela resposta que percebo o que me faz desfrutar de Guimarães.

 

   

 

Disseram-me isto desde sempre e desde sempre ergo a cabeça para reler vezes sem conta quando passo nesta muralha, também à procura do pé de tomates que volta e meia consegue tirar sustento de uma qualquer brecha por entre as pedras. E desde sempre pouco acrescentei ao que se diz por aí e releio. Poucos sabem como, mas para muitos isto é também o pouco que sabem da História de Portugal.

O que interessa a soma dos factos? A verdade é agora absoluta e criou-se como slogan estendido a todo o país. É o berço da nação. Chega. Para os vimaranenses é este o lugar de Guimarães na história: o princípio de tudo. De qualquer coisa que já ia a meio, que já existia mas arranjou novos contornos que são agora a base da identidade de um povo agarrado a esta ideia especial, que torna a cidade especial e por isso, especiais todos os que cá nasceram. É uma coisa que se sente, já se não pensa. Deixou de ser obra da mente. Ninguém se atreve a retirar este título a Guimarães e só os que cá moram têm noção da importância de tamanho estatuto. Não nos acrescenta nada e acrescenta-nos tudo ao mesmo tempo.

O que me faz desfrutar de Guimarães são as crenças simples que alberga. É poder ser tola no meio de tolos. O “porque sim” que às vezes me embaraça é o mesmo que me dá liberdade e orgulho por ter nascido presa a ingénuos que muitos desdenham e não querem comprar. É tão bom ter um ninho onde nos sabemos enrolar e aconchegar com cuidado para não estragar os ninhos vizinhos, para não incomodar. Vale o esforço de não querer incomodar. E é tão singelo este viver em Guimarães sem pretensão a capital porque vale mais sem o ser. Sem constrangimentos de sermos crentes e acreditarmos em crenças simples.

 

 

“Do número das cidades imagináveis temos de excluir aquelas cujos elementos se somam sem um fio condutor que as ligue, sem uma regra interna, uma perspectiva, um discurso. São cidades como sonhos: todo o imaginável pode ser sonhado mas também o sonho mais inesperado é um enigma que oculta um desejo, ou o seu contrário, um terror.

As cidades como os sonhos são construídas de desejos e de medos, embora o fio do seu discurso seja secreto, as suas regras absurdas, as perspectivas enganosas, e todas as coisas escondam outra.” (“As Cidades Invisíveis” de Ítalo Calvino)

 

 

Como a muralha que abriga o tomateiro que não se encontra nos postais à venda para turistas. Está guardado na memória do povo e só em época propícia se pode achar pendurados os ditos frutos. Eu passo e ergo a cabeça à procura. Essa é a minha crença.

 

Não dá para não pensar… Setembro 17, 2008

Filed under: Ditos suspensos,Tesouros dos Livros — tesourosqueroubei @ 9:42 pm

 

“ (…) Mas isso foi há muito tempo. Crescemos, fomos para sítios diferentes, separámo-nos. Nada que se estranhe, acho. As nossas vidas levam-nos para caminhos que não conseguimos controlar e quase nada permanece connosco. Tudo morre quando morremos, e a morte é uma coisa que nos acontece todos os dias.”

 

In “O Quarto Fechado” de “A Trilogia de Nova Iorque” de Paul Auster

 

 

Entre o ceu e a terra… Setembro 10, 2008

Filed under: Bolinar,Mim adentro,Tesouros dos Livros — tesourosqueroubei @ 12:04 am

O mar é de mosto, as vinhas são as ondas…S. Leonardo de Galafura nas palavras de Miguel Torga é um marinheiro num rabelo de penedos ancorado no cais humano, e se depressa rumar ao divino, depressa perde a cor da vida. Perdem-se os montes, os socalcos e os vinhedos, Perde-se o rio Douro, transformado num charco…

 

 

Monte de S. Leonardo, Galafura, Peso da Régua

 

Ai pois é… Agosto 25, 2008

Filed under: Mim adentro,Tesouros dos Livros — tesourosqueroubei @ 10:19 pm

 

Gosto do preto no branco,

como costumam dizer:

antes perder por ser franco

que ganhar por não ser.

 

Quem nada tem, nada come;
e ao pé de quem tem de comer,
se alguém disser que tem fome,
comete um crime, sem querer

 

Há luta por mil doutrinas.
Se querem que o mundo ande,
Façam das mil pequeninas
Uma só doutrina grande.

 

Que importa perder a vida
na luta contra a traição
se a razão mesmo vencida
não deixa de ser razão

Hoje é dia de António Aleixo. Não se assinala nem a morte nem do nascimento deste poeta popular português. Simplesmente revivi durante todo o dia a sensação que só a leitura das quadras do Sr. Aleixo me conseguiam sugerir.

 

Não dá para não pensar… Agosto 21, 2008

Filed under: Ditos suspensos,Tesouros dos Livros — tesourosqueroubei @ 8:30 pm

 

“Quando não consideramos que o homem diante de nós é um ser humano, poucas serão as restrições que a nossa consciência imporá ao nosso comportamento para com ele”

Paul Auster in “A Trilogia de Nova Iorque” (Cidade de Vidro)

 

 

Olhar para ver… Agosto 13, 2008

Filed under: Bolinar,Mim adentro,Mundo adentro,Tesouros dos Livros — tesourosqueroubei @ 8:13 pm

Impressão Digital

 

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandescente.

Inútil seguir vizinhos,
que ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

 

António Gedeão

 

Moinho de madeira, Alvorninha

 

Quando fui para a terra onde este moinho se situa, levava os olhos cheios de “postais” com o mar lá ao longe, com cores definidas e completamente conhecidas. Nunca tinha visto o que tinha visto, mas sabia-o, tinha-o na mente. Alvorninha apareceu-me depois, quando estava cansada, tinha o corpo e a mente esgotados. Esforço-me por não subestimar nada do que me rodeia, mas estava de tal forma estafada que me rendi à primeira impressão. Não totalmente, mas pensei que pouco havia a dizer, pensar e sentir sobre Alvorninha. Esta ideia, apesar do cansaço se manter, dissipou-se com o passar do tempo, das conversas, das paisagens…

 

Dizem que pela felicidade sem demora não se pode esperar… Julho 22, 2008

Filed under: Mim adentro,Tesouros dos Livros — tesourosqueroubei @ 4:20 pm

 

“Fracas expectativas são sinal de felicidade” é uma frase de um estudo sobre esse estado, desejado por todos e que só apenas existe conforme o sentido de cada um, baseado nas ditas expectativas. E à primeira vista olho para esta afirmação e parece-me depreciativa. Imagino logo um pobretana, daqueles imbecis que se enterra na própria miséria. Isto porque pobres, os há de muitas espécies. Esta categoria, os por mim considerados miseráveis, são mais pobres na índole do que pela falta de cifrões que normalmente caracterizam a pobreza. Ainda assim, não ponho esses mesmos cifrões de lado porque os pobretanas fazem malabarismo com eles.

Um dia destes no “Opinião Pública” da SIC Notícias o tema em discussão rondava o Carjacking e as novas medidas de prevenção adoptadas recentemente. Uma telespectadora disse, no telefonema que fez, mais ou menos isto: “Roubaram-me o carro e preferia que me dessem um tiro, do que me roubassem o carro.” Considerando todo o transtorno que se seguiu pela falta que lhe fez, pois não foi recuperado, e as prestações que até então tinha pago e continuava a pagar por algo que se tinha esfumado. Para mim, um bom exemplo de pobretana e malabarista. O tiro não foi propriamente uma força de expressão, pela forma convicta com que se referiu a ele e no contexto de tudo o que disse. A telespectadora que se seguiu a ela, antes de dar inicio à intervenção que tinha em mente, não conseguiu deixar de se mostrar estarrecida com o que acabara de ouvir. Estarrecida foi mesmo a palavra utilizada e é sinónimo da que me caracterizava na altura: atónica.

A primazia da vida é comum a todos e espontaneamente interiorizada. As expectativas variam, mas julgo que o instinto de sobrevivência das situações limite dita as regras e joga sozinho. Para a grande maioria das pessoas um tiro é pior que um carro roubado.

Já consigo perceber aquela expressão “desde que haja saúde” e todas as variações de a enaltecer em detrimento de muitos outros “estados de gracinha”. Não sei se a saúde é a mais importante condição na conjuntura da vida, mas reconheço-lhe a importância. Quando era miúda, nas minhas primeiras incursões hipotéticas fazia este raciocínio: é melhor viver com saúde e sozinha ou não ter saúde e morrer rodeados por quem nos ama? Na altura preferia morrer. Agora acho que tendo a saúde em dia tudo o resto depende de cada um. Uma alimentação saudável e exercício físico ajuda mas não é a garantia de uma vida mais prolongada e vigorosa. Da mesma forma que o lutar pelos nossos sonhos não são a certeza de os realizarmos.

Sobre a felicidade muito há a dizer mas a frase com que iniciei este desarticulado de ideias parece querer dizer que temos que desejar pouco para sermos felizes. E este sentido de abstinência de expectativas como sinónimo de felicidade já conhecia na “Carta Sobre a Felicidade” de Epicuro a Menescau.

“O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não-viver não é um mal.

    Assim, como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve.

(…)

Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não-nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais.

    Consideremos também que, dentre os desejos, há os que são naturais e os que são inúteis; dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas naturais; dentre os necessários, há alguns que são fundamentais para a felicidade, outros, para o bem-estar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a direccionar toda a escolha e toda a recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas acções, para nos afastarmos da dor e do medo.

(…)

    Embora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles nos advêm efeitos muitas das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo. Portanto, todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser sempre evitadas. Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem.

Consideramos ainda a auto-suficiência um grande bem; não que devamos nos satisfazer com pouco, mas para nos contentarmos com esse pouco caso não tenhamos o muito, honestamente convencidos de que desfrutam melhor a abundância os que menos dependem dela; tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil.

(…)

    Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não é só conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem  os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem termos as vicissitudes da sorte.

(…) a prudência é o princípio e o supremo bem, razão pela qual ela é mais preciosa do que a própria filosofia; é dela que originaram todas as demais virtudes; é ela que nos ensina que não existe vida feliz sem prudência, beleza e justiça sem felicidade. Porque as virtudes estão intimamente ligadas à felicidade, e a felicidade é inseparável delas.

(…)

    Entendendo que a sorte não é uma divindade, como a maioria das pessoas acredita (pois um deus não faz nada ao acaso), nem algo incerto, o sábio não crê que ela proporcione aos homens nenhum bem ou nenhum mal que sejam fundamentais para uma vida feliz, mas, sim, que dela pode surgir o início de grandes bens e de grandes males. A seu ver, é preferível ser desafortunado e sábio, a ser afortunado e tolo; na prática, é melhor que um bom projecto não chegue a bom termo, do que chegue a ter êxito um projecto mau.

    Medita, pois, todas estas coisas e muitas outras a elas congéneres, dia e noite, contigo mesmo e com teus semelhantes, e nunca mais te sentirás perturbado, quer acordado, quer dormindo, mas viverás como um deus entre os homens. Porque não se assemelha absolutamente a um mortal o homem  que vive entre bens imortais.”

Excertos da Carta Sobre a Felicidade” de Epicuro a Menescau

 

Quando chega D. Sebastião? Junho 12, 2008

Filed under: Tesourar,Tesouros dos Livros — tesourosqueroubei @ 10:58 pm

 

“Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,

define com perfil e ser

este fulgor baço da terra

que é Portugal a entristecer –

brilho sem luz e sem arder,

como o que o fogo-fátuo encerra.

 

Ninguém sabe que coisa quere.

Ninguém conhece que alma tem,

nem o que é mal nem o que é bem.

(Que ância distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

 

É a Hora!”

 

in “Mensagem” de Fernando Pessoa

 

Era capaz de dispensar um tesouro assim, porque não é bom sinal a menção. Andámos entre patrióticos jogos de futebol e a crise dos combustíveis, greves dos pescadores com testemunho passado aos camionistas e penso que é, quase, só isto. Estou menos empolgada com o futebol do que em anteriores europeus, mundiais. Acho que a excessiva cobertura me cria um efeito contrário ao esperado. Mas estou com a Selecção e todas as vantagens colaterais de andar a correr bem a vida a Portugal. Em última análise deve haver uma qualquer parte desse proveito a calhar-me na rifa, mas não estou para análises. Só uma. Será que se revela o poder de alienação do futebol numa altura em que até Sócrates, o primeiro, diz ter sentido o “Estado vulnerável”?

 

 

Eu penso, logo vou existindo Maio 7, 2008

Filed under: Mim adentro,Tesouros dos Livros — tesourosqueroubei @ 10:52 am

 

O que vale o sangue dos outros?

“É fácil pagar com o sangue dos outros?” 

 

 

 

Coexistência pacífica é basicamente a tarefa mais difícil do Homem realizar. O equilíbrio entre as suas crenças e os valores exteriores sem que haja o injusto anulamento de nenhuma das partes é um cabo dos trabalhos.

O sujeito e os outros, os outros e o sujeito é uma relação cujo divórcio não existe. O casamento é feito à nascença e dura para sempre. Nem sabemos sequer se é a morte que os separa.

Este espaço parte da leitura de um livro que parecia reunir muitos dos meus pensamentos acerca de mim, dos outros e do mundo. “O Sangue dos Outros” de Simone de Beauvoir dá voz ao dilema de um homem: a responsabilidade social que tem como membro dirigente de um grupo político e a culpa pessoal dessa mesma responsabilidade por ordens dadas a outros que lhe trazem o peso das consequências. É aí que entra o mote “todos somos responsáveis de tudo, perante todos” de Dostoievski e não há nada que, se faça ou não se faça, traga apenas resultados no sujeito solipsisticamente falando.

 

 

 

 

Simone de Beauvoir

 

Simone de Beauvoir

O homem é um ser social e político e tem que conjugar as aspirações pessoais, os desejos do ‘eu’ com as aspirações colectivas, os desejos dos outros. Isto porque, apesar de existirmos uns para os outros e uns pelos outros, também somos únicos e por isso o ‘eu’ existe para cada um dos ‘outros’.

 

 

A lei (in)quieta Maio 7, 2008

Filed under: Tesouros dos Livros — tesourosqueroubei @ 9:52 am

 

“Não me entenda mal, obviamente que concordo que qualquer pessoa é inocente até prova em contrário. Mas não entendia de início que se tratava de um jogo, não me preparei para isso, terei medido mal o mergulho na, digámos, vida real, onde em vez de fulano e sicrano que nos aparece nos livros para exercitarmos argumentações, aparece um rapaz a sério, mudo de levar tanta pancada, uma miúda da idade da minha filha, violada anos a fio pelo pai, imagino a cara dela a ler pedagógicos livros de educação sexual 

Não deves precipitar a tua primeira relação

explicarem-lhe que numa época de tantos perigos é essencial o uso de preservativo, que o sexo é afinal tão natural como respirar, que é um directo derivado da paixão e do amor, ela a folhear e a sentir de novo o bafo a vinho, as unhas pretas a baixarem o pijama, a barba aguda a picar o pescoço, enquanto olha o tecto a morder os lábios

Vai passar vai passar já vai passar”

E continua, pesado, o desabafo de um advogado na primeira consulta com um “arqueólogo da mente” numa passagem do livro “A Casa Quieta” de Rodrigo Guedes de Carvalho.

 

 

 
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