Tesouros que roubei

Porque aqui roubar não é um crime

Veio mesmo a calhar… Maio 3, 2010

Filed under: regalos sonoros — tesourosqueroubei @ 11:05 pm

Para celebrar as mudanças que nos ocorrem na vida e nos mostram aquilo que realmente importa. É precisamente no decorrer dos saltos e sobressaltos do caminho que descobrimos o que é importante e vale a pena transportar na carroça. Mas bom ou mau, tudo é útil para essa descoberta.

 

“Mentimos para proteger o nosso prazer…” Abril 1, 2010

Filed under: Cogito adentro — tesourosqueroubei @ 5:08 pm

Que lugar ocupa a mentira na vida de cada um? Pelo estudo abordado hoje na TSF tem lugar numa conversa de 10 minutos. E pelos vistos seja pequena ou grande a mentira ocorre 3 vezes nesse 1/6 de hora. Pode ocorrer ou socorrer-nos, porque eu acredito na mentira como sendo a salvação, a nossa protecção, a arma do nosso equilíbrio emocional. Não gosto das mentiras dos gabarolas ou dos maldosos, nem dos compulsivos. Mas há mentiras engraçadas, outras necessárias ou mesmo piedosas.

Posso-me considerar viciada na verdade como um dos protagonistas do “Closer”, mas não estou impune no que diz respeito à mentira.

 

Viva a solidariedade…feminina. Fevereiro 3, 2010

Filed under: Vida adentro — tesourosqueroubei @ 12:35 pm

Este pequeno texto foi-me enviado por email, já está perdida a autoria, só quero assumir que não é meu, mas podia ser. Acho que podia ser de qualquer ser humano do sexo feminino claro, que não tem qualquer ajuda de pontaria entre as pernas. Subscrevo este texto, só não me sinto familiarizada com a parte do galo da marrada da porta, talvez porque, numa marrada já experienciada, encontrei uma casa-de-banho, excepcionalmente mais ampla, onde consegui resguadar a cabeça por causa de alguns centrímetros de distância à porta.

Aqui fica:

“SÓ MESMO UMA MULHER PARA COMPREENDER A SAGA DA MULHER NUMA CASA DE BANHO PÚBLICA….. MAS, QUEM SABE (?) A PARTIR DE AGORA OS HOMENS DEIXEM DE SE QUESTIONAR DE UMA VEZ POR TODAS?!

*Por que é que as mulheres demoram tanto tempo quando vão à casa de banho?*

O grande segredo de todas as mulheres a respeito da casa de banho é que, quando eras pequenina, a tua mamã levava-te à casa de banho, ensinava-te a limpar o tampo da sanita com papel higiénico e depois punha tiras de papel cuidadosamente no perímetro da sanita.

Finalmente instruía-te: “nunca, nunca te sentes numa casa de banho pública!”
E depois ensinava-te a “posição”, que consiste em balançar-te sobre a sanita numa posição de sentar-se sem que o teu corpo tenha contacto com o tampo.

“A Posição” é uma das primeiras lições de vida de uma menina, importante e necessária, que nos acompanha para o resto da vida. Mas ainda hoje, nos nossos anos de maioridade, “a posição” é dolorosamente difícil de manter, sobretudo quando a tua bexiga está quase a rebentar.

Quando *TENS* de ir a uma casa de banho pública, encontras uma fila enorme de mulheres que até parece que o Brad Pitt está lá dentro. Por isso, resignas-te a esperar, sorrindo amavelmente para as outras mulheres que também cruzam as pernas e os braços, discretamente, na posição oficial de “tou aqui tou-me a mijar!”.
Finalmente é a tua vez! E chega a típica “mãe com a menina que não aguenta mais” (a minha filhota já não aguenta mais, desculpe, vou passar à frente, que pena!). Então verificas por baixo de cada cubículo para ver se não há pernas. Estão todos ocupados.

Finalmente, abre-se um e lanças-te lá para dentro, quase derrubando a pessoa que ainda está a sair.

Entras e vês que a fechadura está estragada (está sempre!); não importa…
Penduras a mala no gancho que há na porta… QUAAAAAL? Nunca há gancho!!

Inspeccionas a zona, o chão está cheio de líquidos indefinidos e fétidos, e não te atreves a pousá-la lá, por isso penduras a mala no pescoço enquanto vês como balança debaixo de ti, sem contar que a alça te desarticula o pescoço, porque a mala está cheia de coisinhas que foste metendo lá para dentro, durante 5 meses seguidos, e a maioria das quais não usas, mas que tens no caso de…

Mas, voltando à porta… como não tinha fechadura, a única opção é segurá-la com uma mão, enquanto com a outra baixas as calças num instante e pões-te “na posição”…

AAAAHHHHHH… finalmente, que alívio… mas é aí que as tuas coxas começam a tremer… porque nisto tudo já estás suspensa no ar há dois minutos, com as pernas flexionadas, as cuecas a cortarem-te a circulação das coxas, um braço estendido a fazer força na porta e uma mala de 5 quilos a cortar-te o pescoço!

Gostarias de te sentar, mas não tiveste tempo para limpar a sanita nem a tapaste com papel; interiormente achas que não iria acontecer nada, mas a voz da tua mãe faz eco na tua cabeça *”nunca te sentes numa sanita pública”*, e então ficas na “posição de aguiazinha”, com as pernas a tremer… e por uma falha no cálculo de distâncias, um finííííssimo fio do jacto salpica-te e molha-te até às meias!!

Com sorte não molhas os sapatos… é que adoptar “a posição” requer uma grande concentração e perícia.

Para distanciar a tua mente dessa desgraça, procuras o rolo de papel higiénico, maaaaaaaaaaas não hááááá!!! O suporte está vazio!

Então rezas aos céus para que, entre os 5 quilos de bugigangas que tens na mala, pendurada ao pescoço, haja um miserável lenço de papel… mas para procurar na tua mala tens de soltar a porta… ???? Duvidas um momento, mas não tens outro remédio. E quando soltas a porta, alguém a empurra, dá-te uma trolitada na cabeça que te deixa meio desorientada mas rapidamente tens de travá-la com um movimento rápido e brusco enquanto gritas

OCUPAAAAAADOOOOOOOOO!!

E assim toda a gente que está à espera ouve a tua mensagem e já podes soltar a porta sem medo, ninguém vai tentar abri-la de novo (nisso as mulheres têm muito respeito umas pelas outras).

Encontras o lenço de papel!! Está todo enrugado, tipo um rolinho, mas não importa, fazes tudo para esticá-lo; finalmente consegues e limpas-te. Mas o lenço está tão velho e usado que já não absorve e molhas a mão toda; ou seja, valeu-te de muito o esforço de desenrugar o maldito lenço só com uma mão.

Ouves algures a voz de outra velha nas mesmas circunstâncias que tu “alguém tem um pedacinho de papel a mais?” Parva! Idiota!

Sem contar com o galo da marrada da porta, o linchamento da alça da mala, o suor que te corre pela testa, a mão a escorrer, a lembrança da tua mãe que estaria envergonhadíssima se te visse assim… porque ela nunca tocou numa sanita pública, porque, francamente, tu não sabes que doenças podes apanhar ali, que até podes ficar grávida (lembram-se??)…. Estás exausta!

Quando páras já não sentes as pernas, arranjas-te rapidíssimo e puxas o autoclismo a fazer malabarismos com um pé, muito importante!

Depois lá vais pró lavatório. Está tudo cheio de agua (ou xixi? lembras-te do lenço de papel…), então não podes soltar a mala nem durante um segundo, pendura-la no teu ombro; não sabes como é que funciona a torneira com os sensores automáticos, então tocas até te sair um jactozito de água fresca, e consegues sabão, lavas-te numa posição do corcunda de Notre Dame para a mala não resvalar e ficar debaixo da água.

Nem sequer usas o secador, é uma porcaria inútil, pelo que no fim secas as mãos nas tuas calças – porque não vais gastar um lenço de papel para isso e sais…

Nesse momento vês o teu namorado, ou marido, que entrou e saiu da casa de banho dos homens e ainda teve tempo para ler um livro de Jorge Luís Borges enquanto te esperava.

“Mas por que é que demoraste tanto?” – pergunta-te o idiota. “Havia uma fila enorme” – limitas-te a dizer.

E é esta a razão pela qual as mulheres vão em grupo à casa de banho, por solidariedade: uma segura-te na mala e no casaco, a outra na porta e a outra passa-te o lenço de papel debaixo da porta, e assim é muito mais fácil e rápido, pois só tens de te concentrar em manter “a posição” e *a dignidade*.

*Obrigada a todas por me terem acompanhado alguma vez à casa de banho e servir de cabide ou de agarra-portas! Passa isto aos desgraçados dos homens que sempre perguntam “querida, por que motivo demoraste tanto tempo na casade banho?” …. IDIOTAS!*”

 

Moinantes não passam do chão…eu também não. Janeiro 29, 2010

Filed under: Cogito adentro — tesourosqueroubei @ 4:12 pm

Vidro partido. Pasta e GPS nem vê-los. Fui assaltada.

Culpados? Eu.

Cheguei à conclusão que as vítimas são os verdadeiros culpados em caso de assalto. Quem se lixou fui eu e o larápio ainda por cima recambiou-me as culpas. Pelo menos, todos a quem me dirigi, fazendo menção do sucedido, assim o entendeu e entende. Deixei coisas à vista, o GPS e uma pasta que se poderia revelar cheia de maços de notas às 16 horas do dia.

Se o guna fosse apanhado e depois chamado a Tribunal, na hora de se ditar a sentença era a mim que pintavam o cadastro.

Como se não bastasse o infortúnio momentâneo, só atenuado com a minha enorme capacidade de relativizar as desgraças, deixou-me uma horrível sensação de mania da perseguição. Agora todos os “moedinhas” são o potencial ladrão que me lixou dois dias de trabalho e que alterou a teoria do “leve dois pague um”, transformando-a agora em pague dois GPS’s e fique apenas com um. Isto porque, neste intervalo reafirmei a necessidade que tinha do meu mais-que-tudo. Comprei outro. Teve que ser. A ausência do GPS frisou a minha carência de ser guiada quando a distracção dita: sempre em frente. Já nem é o não saber o caminho, é o “colar” à rádio, à música ou a nada em concreto e seguir, seguir, seguir…em frente. O pensar e não me lembrar do caminho, o não me lembrar de nenhum pormenor que me possa garantir que estive a conduzir. Esta dormência é colmatada pelo GPS, o meu mais-que-tudo.

Voltei ao local do crime, hoje. Ao mesmo cliente e depois repeti a rotina. Mudou a hora. Tudo aconteceu de tarde e agora revivi o momento às 9:30 da manhã. Incuti em mim precaução. Tenho que ser precavida, tenho que me prevenir. Eu, que quando era criança, fazia das férias uma saída dos escuteiros. Eu, que nunca fui escuteira, artilhava-me com tudo o que poderia ser necessário, como se de férias não estivesse no meio da civilização. Levava tubos de linha e agulha para coser. Chegou a ser útil, e não me esqueci do pasmo da avó quando deu conta que eu tinha os utensílios que ela “apelou” em vão.

Já cá não volta o arrumador suspeito. Fosse ou não ele, levou uma coça que não quer repetir. Não foi encomenda minha e até fiquei-lhe com pena. Pela descrição, deu uma cambalhota no ar e ficou estendido no chão.

Na polícia, “o sistema não está a funcionar, venha de tarde, menina”, “Ah, trabalha, então pode vir à noite que também é mais certo que isto esteja direito”.

 

Feliz Natal… Dezembro 23, 2009

Filed under: Cogito adentro — tesourosqueroubei @ 5:47 pm

Hoje de manhã acordei apertada para fazer xixi e dei graças por isso porque não havia mais nenhuma vontade que me fizesse levantar. Fico muitas vezes contente por essa condição fisiológica me atormentar aqueles momentos “levanta, não levanto”. É sempre uma facilidade quando não arranjamos mais nenhum bom motivo para nos pormos a pé. Depois, mais tarde, arranjei mais um pretexto razoável para estar acordada. Local de trabalho: Gerês. Dez da manhã e o Gerês é todo meu como nunca tinha sido. Pensei isso de tal forma que parei o carro no meio da estrada, com os quatro piscas ligados só para não parecer que era realmente tudo meu e comecei a tirar fotos. Não havia ninguém. O boss liga e: amanhã vai tudo tirar férias, queres que te marque o dia? Não é bem citado, mas a ideia é, resumidamente esta, vou inesperadamente ter um diazito de férias. E só agora dei conta que é o meu primeiro dia de férias desde que trabalho. Desde as férias forçadas que já tive em várias ocasiões, só agora tenho férias oficiais e merecidas. Mesmo que seja apenas um dia. Hoje é véspera da véspera de Natal e sem dúvida que adoro esta quadra natalícia. Como se não bastasse ter ido ao Gerês e saber que amanhã estou de férias também estou infantilmente ansiosa que o Natal chegue e que chegue a troca de prendas e os docinhos e as coisas boas e o quentinho das casas todas por onde passo e os filmes de Natal e a rua à meia noite e toda a gente contente e bem disposta.

 

Quem inventou o trabalho? Novembro 12, 2009

Filed under: Mim adentro — tesourosqueroubei @ 11:01 pm

Hoje li num pacote de açúcar qualquer coisa do género: “o café estimula a actividade intelectual e física” e pensei que poderia ser essa a solução para o meu problema. Sinto-me absorvida pelo trabalho. Há quem pense em vitaminas. Vou-me virar para o café. Estou a ouvir o rufar de caixas, o Pinheiro, a Festa está próxima e eu só penso no trabalho. Ando a pensar comprar um Blackberry para “ganhar tempo” e não perco tempo com nada, nem a sonhar. Até a dormir estou a trabalhar e não gosto desta condição. Ainda não consegui cheirar o Inverno, ainda não parei para sentir o Novembro. A cidade passa-me ao lado, chego a casa de carro e saio com ele. Tem sido assim, raras excepções e nestes últimos 15 dias é a rotina diária. Os fins-de-semana passam e quase não os noto, não rendem e a segunda-feira é o primeiro dia de cinco para voltar a descansar. Não gosto de mim assim, o trabalho não fica no escritório, queria poder trabalhar até às sete, arrumar a mesa, desligar a luz e fechar a porta.

 

“Entre as mãos de uma criança…” Novembro 1, 2009

Filed under: Mim adentro — tesourosqueroubei @ 12:09 am

Hoje uma criança confiou-me uma frase do diário que tem um código musical a substituir a antiga chave mestra que guardava tantos segredos: “querido diário, adorei o meu aniversário”. Uma verdadeira confissão quando parece que o mais normal é uma criança gostar sempre de fazer anos e da festa. Ela não. Melhor, ela não parecia estar a gostar, até parecia a criança mais alienada da festa. E só com esta frase, a primeira escrita no diário, passada uma semana do dito festejo, é que confirmei que ela estava na festa. A maior parte do tempo parecia ausente. Não se apresentava naquele sentido normal da aniversariante que toda a gente paparica, que nesse dia é quem manda, que todos permitem que mande. O pouco sossego era o dela, entre balões rebentados, enchidos com uma garrafa de hélio limitada a cinquenta balões que os faziam custar uma média de um euro e meio, lá se via a miúda sentada entre panados quentinhos e prendas recebidas.

Arecadação estava mesmo sem ‘r’ e foi lá que confirmei a estranheza dessa rapariga. Mas hoje disse que gosta do Carnaval e também: “sempre que digo a palavra crepe dá-me vontade de vomitar”. Afinal ela é criança, não é muito infantil mas é criança e o que hoje me valeu foi a companhia dessa criança.

Disseram-me que o meu anjinho anda muito ocupado a manter-me viva para ter tempo de me dar fortuna noutros campos. Se assim é, muita sorte já tenho eu.

 

Daqui e dacolá… Outubro 21, 2009

Filed under: Uncategorized — tesourosqueroubei @ 9:58 pm

Frase do dia: “O que não se vê não é lembrado” que sai directamente do provérbio: “Quem não é visto, não é lembrado.”

 

Afinal que lugar se ocupa na sociedade? Agosto 28, 2009

Filed under: Uncategorized — tesourosqueroubei @ 1:56 pm

Faço a pergunta àquilo que o meu avô entende ser uma das sabedorias de vida: aquele que sabe o lugar que ocupa na sociedade está garantidamente bem posicionado, pressuponho, e a colocação dá-lhe também garantias de utilidade. Mas será que perante tantos postos existe alguma hierarquia dessa utilidade? Pode-se medir a importância do espaço que se ocupa? Como se a sociedade fosse um qualquer estádio de futebol com cadeiras compradas e lugares cativos, ou se tratasse de um cinema onde se distribui a assistência, neste caso participativa, pela plateia, tribuna, balcão e camarote? Volta e meia, questiono o lugar que ocupo na sociedade, mais vezes do que as que oiço o meu avô dizer a velha máxima. Ponho em dúvida se estou bem posicionada e se posso acreditar na utilidade do meu assento. Agarro-me a argumentos e a comparações repletas de relativismo. Recuso estar sentada, mas limito-me a levantar para protestar. Isso seria muito bom mas considere-se que o meu entendimento de protesto é rogar pragas a ninguém e a mim também não, considerar que o trabalho é invenção nossa e que já compreendo os terroristas. Depois volto a pôr o véu cor-de-rosa e assumo-me a peça do puzzle que saltou da ordem social por brevíssimos momentos e regressou depois de aliviar a pressão. E nesta rebeldia toda, não atirei nem uma pedra, nem coquetéis molotov. É uma pena. No fundo tudo gira à volta da palavra “trabalho” que dita as regras e o lugar que se ocupa na sociedade. Hoje em dia cada vez mais todas as posições “emocionais” na sociedade deixam de catalogar as pessoas por diferenças que mereçam destaque especial. Mas o trabalho não. O trabalho é agora o nosso “carimbo na testa”. Solteiros, divorciados, casados, gays e lésbicas, já não interessa esta categorização, porque podem ser todos empregados ou desempregados, com altos cargos ou “substituíveis” e isso, faz toda a diferença. Acho até que o lugar do Estado Civil no Bilhete de Identidade deveria ser substituído por ”Profissão”. Uma forma natural de dar dinheiro ao Estado pelas frequentes e dispendiosas renovações do dito documento identificativo por saltarmos continuadamente de trabalho em trabalho. Alguns começariam a considerar que estar desempregado é uma maneira a longo prazo de poupar dinheiro. Uma perspectiva que já tem sido ponderada, isto porque a mobilidade laboral é a melhor maneira de gastar o ordenado ao fim do mês. Se antigamente o salário dava para a família toda agora chega para alugar quarto e para as deslocações ao fim-de-semana de quem trabalha longe de casa. As refeições para um ficam ao preço de dois ou três e feitas as contas, sobra pouco para perspectivar o futuro. No fundo estamos a caminhar para nómadas e daqui a algumas décadas vamos ser todos ciganos solitários, porque vamos trabalhar para todo o lado, mas sozinhos, sem casa às costas. E sem casa ocupamos um lugar muito mais “pequeno” e que novamente se volta a restringir ao trabalho que já não é para toda a vida, mas mesmo assim passamos toda a vida a trabalhar. Enfim, o lugar que se ocupa na sociedade? Qualquer um, venha o diabo e escolha.

 

Ó Guimarães… Maio 16, 2009

Filed under: Bolinar,Cogito adentro,Mim adentro,Mundo adentro,Tesouros dos Livros — tesourosqueroubei @ 12:18 pm

“De uma cidade não desfrutas as sete ou as setenta maravilhas, mas sim a resposta que dá a uma tua pergunta.” (“As Cidades Invisíveis” de Ítalo Calvino)

Onde nasceu Portugal?

Não é bem esta pergunta que faço, mas é pela resposta que percebo o que me faz desfrutar de Guimarães.

 

   

 

Disseram-me isto desde sempre e desde sempre ergo a cabeça para reler vezes sem conta quando passo nesta muralha, também à procura do pé de tomates que volta e meia consegue tirar sustento de uma qualquer brecha por entre as pedras. E desde sempre pouco acrescentei ao que se diz por aí e releio. Poucos sabem como, mas para muitos isto é também o pouco que sabem da História de Portugal.

O que interessa a soma dos factos? A verdade é agora absoluta e criou-se como slogan estendido a todo o país. É o berço da nação. Chega. Para os vimaranenses é este o lugar de Guimarães na história: o princípio de tudo. De qualquer coisa que já ia a meio, que já existia mas arranjou novos contornos que são agora a base da identidade de um povo agarrado a esta ideia especial, que torna a cidade especial e por isso, especiais todos os que cá nasceram. É uma coisa que se sente, já se não pensa. Deixou de ser obra da mente. Ninguém se atreve a retirar este título a Guimarães e só os que cá moram têm noção da importância de tamanho estatuto. Não nos acrescenta nada e acrescenta-nos tudo ao mesmo tempo.

O que me faz desfrutar de Guimarães são as crenças simples que alberga. É poder ser tola no meio de tolos. O “porque sim” que às vezes me embaraça é o mesmo que me dá liberdade e orgulho por ter nascido presa a ingénuos que muitos desdenham e não querem comprar. É tão bom ter um ninho onde nos sabemos enrolar e aconchegar com cuidado para não estragar os ninhos vizinhos, para não incomodar. Vale o esforço de não querer incomodar. E é tão singelo este viver em Guimarães sem pretensão a capital porque vale mais sem o ser. Sem constrangimentos de sermos crentes e acreditarmos em crenças simples.

 

 

“Do número das cidades imagináveis temos de excluir aquelas cujos elementos se somam sem um fio condutor que as ligue, sem uma regra interna, uma perspectiva, um discurso. São cidades como sonhos: todo o imaginável pode ser sonhado mas também o sonho mais inesperado é um enigma que oculta um desejo, ou o seu contrário, um terror.

As cidades como os sonhos são construídas de desejos e de medos, embora o fio do seu discurso seja secreto, as suas regras absurdas, as perspectivas enganosas, e todas as coisas escondam outra.” (“As Cidades Invisíveis” de Ítalo Calvino)

 

 

Como a muralha que abriga o tomateiro que não se encontra nos postais à venda para turistas. Está guardado na memória do povo e só em época propícia se pode achar pendurados os ditos frutos. Eu passo e ergo a cabeça à procura. Essa é a minha crença.

 

 
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